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XV Congresso Nacional de Estudos Clássicos

O VI Congresso da SBEC / XV Ciclo de Debates em História Antiga do LHIA/UFRJ terá como foco de reflexão "Memória & Festa". Comemorar e rememorar os 20 anos de fundação da SBEC é o objetivo precípuo. A temática nos remete ainda a uma questão absolutamente atual e bastante presente nos debates em curso nas Ciências Humanas e nos Estudos Clássicos, ao propiciar a reflexão sobre a construção e a desconstrução das relações de identidades e alteridades. Além disso, a cidade do Rio de Janeiro, ex-capital federal, palco de tantas das manifestações político-sociais brasileiras e marcadamente plural no seu aspecto cultural, é um locus privilegiado para se pensar a memória e as festas.

Memória & Festa é uma temática que se insere em uma nova abordagem relacionada ao cotidiano, às percepções dos outros culturais e à construção da identidade. A festa é fala, memória e mensagem. O lugar simbólico onde cerimonialmente se separam o que deve ser esquecido e o que deve ser resgatado da coisa ao símbolo e posto em evidência de tempos em tempos, comemorado e celebrado. A festa, quando soleniza e comemora a memória, demarca e restabelece laços. Ao lado do tempo da vida cotidiana, tomada em um sistema severo de interditos e precauções diversas, que visam a manter a sociedade nos limites do lícito, se situa o tempo da festa. É o tempo da exceção, do excesso, do exagero, cuja efervescência e exaltação cortam a monotonia cotidiana. Ocorre fora do tempo e do espaço "normais", é marcado por ações invertidas, personagens, gestos e roupas característicos, que geram a condensação de algum aspecto, elemento ou relação, colocando-o em foco, em destaque.

A festa, ao jogar com a metáfora e romper com o excesso de significante, a ordem social da vida e a ordenação lógica do significado, acaba por exagerar o real. Assim, a festa se apossa da rotina e não a exclui, mas excede sua lógica. Oferece paradoxalmente uma visão alternativa da sociedade ao sair de si mesma e ganhar um terreno ambíguo, onde não fica nem como é normalmente, nem como poderia ser, já que o cerimonial é, por definição, um estado passageiro. Ao promover um jogo de transformações através da festa, uma sociedade se revela como coletividade diferenciada, como um grupo que se pode reconhecer como único e diferente dos outros, ou seja, que constrói sua identidade e alteridade. A festa quer lembrar, quer ser a memória do que os homens teimam em esquecer e não devem. É séria e necessária ao brincar com os sentidos e os sentimentos, pois reconstrói o mundo, promove a identidade social, forma o sistema de valores da sociedade e permite tomar consciência de certas cristalizações sociais mais profundas, que a própria sociedade deseja situar como parte dos seus ideais perenes ou mesmo "eternos".

Os espaços da festa e da memória frequentemente se entrelaçam, pois a festa ritualiza e reatualiza algumas dimensões da memória. Podemos afirmar que a memória constitui elemento essencial do que se costuma chamar identidade, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades.

Toda a preocupação e investimento intelectual com o tema da memória — quer individual, quer coletiva —, não é um esforço em vão. O que sobrevive e passa à posteridade é resultante de um processo seletivo, quer da memória quer da documentação. O que se encontra disponível para o pesquisador não é o conjunto do que existiu e foi, mas o que restou do que foi registrado, após escolhas e seleções diversas ao longo do tempo. E isto sem falar na ação do tempo, nas mutações que aleatoriamente dizem o que é e o que não é importante — ou interessante — rememorar e comemorar... O passado, pela memória, se atualiza no presente e a festa constitui-se em um elemento privilegiado desta atualização.

 
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